“O nosso
sonho nunca irá morrer”...
— Péricles
E olha
como essa noite foi longa, viu?
A frase
do cantor ecoa como um hino silencioso entre as margens do Itajaí-Açu.
Em Ilhota, o sonho de ter uma ponte é tão antigo que já atravessou gerações,
campanhas eleitorais e governos que se foram com a correnteza do tempo.
A
política, com sua velha mania de prometer mundos e pontes, foi generosa em
palavras e escassa em concreto. Ilhota aprendeu cedo que discurso não faz
travessia; e que esperança, por aqui, precisa saber nadar.
1975 – Ricardo Koehler e o primeiro alicerce da
esperança
Em 1975,
a Gazeta do Vale registrou a visita do então prefeito Ricardo Koehler
ao governador de Santa Catarina. Na pauta, entre tantos pedidos, um se
destacava:
“A
construção de uma ponte de concreto armado sobre o Rio Itajaí-Açu, ligando o
município ao lado esquerdo do Rio.”
A
manchete da época dizia que o governo estudava o projeto e que “o sonho de
Ilhota poderá se concretizar em breve”. Era o tipo de frase que aquecia o
coração e rendia votos, mas que o tempo, esse velho pedreiro da história,
tratou de desmontar.
Ricardo saiu da prefeitura foi cuidar de seu gado e nada aconteceu.
O sonho ficou de pé só no papel.
Anos 1980 – A balsa da paciência
Nos anos
1980, o que se movia em Ilhota era apenas a balsa, e mesmo assim, devagar
quase parando e muitas vezes parada.
O jornal Gazeta do Vale estampava:
“Balsa
ineficiente – povo quer ponte em Ilhota.”
As
matérias relatavam os atrasos, as filas, as promessas que vinham e iam como a
maré. Era o retrato de um povo preso entre a necessidade e o descaso.
Um texto de 1982 dizia:
“A
travessia que deveria unir divide. A balsa é símbolo da espera e da falta de
visão de nossos governantes.”
Mas, como
costuma acontecer em Ilhota, a esperança não se afundou, apesar da balsa ter
afundado em 2014.
Entre um empurrão na balsa e outro na política, a comunidade continuava
acreditando.
1987 – Lei assinada, sonho carimbado
Em 1987,
um novo capítulo parecia se abrir.
O prefeito Henrique Schaadt sancionou a Lei Municipal nº 0422/87,
que autorizava o Executivo a contratar os serviços necessários para a
construção de uma ponte de concreto armado sobre o Itajaí-Açu.
Era a primeira vez que o sonho ganhava número de lei, carimbo e papel timbrado.
O jornal Gazeta
do Vale celebrou o gesto:
“Ilhota
quer acesso, quer ponte, quer futuro.”
Mas a
manchete seguinte já soava amarga:
“Promessas
à beira do rio: o progresso ainda não desembarcou em Ilhota.”
Mais uma
vez, o rio correu, e as obras não.
1990 – O sonho do progresso
Nos anos
1990, o Jornal Cruzeiro do Vale escreveu o que todo ilhotense
sentia:
“Ilhota,
a cidade que sonha com uma ponte para o progresso.”
A matéria
descrevia a ponte como símbolo de desenvolvimento, unindo Gaspar, Ilhota e o
futuro.
Falava-se de comércio, turismo, integração, esperança.
Mas, no parágrafo final, o tom mudava:
“A ponte,
por enquanto, é apenas uma travessia de palavras.”
Ilhota
continuava dividida por um rio e unida pela saudade do que ainda não veio.
A balsa, velha companheira, seguia rangendo nas águas, uma metáfora viva de uma
cidade que avançava a remo enquanto o resto do mundo acelerava a motor.
1990 – O prefeito-poeta e a metáfora da espera
No mesmo
ano, outra reportagem apresentou o prefeito José Izidro Vieira (Dedá)
como “o prefeito-poeta”.
O texto misturava política e poesia, descrevendo um gestor que escrevia versos
sobre sua cidade e sobre o sonho da ponte:
“Ilhota,
cidade partida, mas de alma inteira.”
Dedá
dizia que acreditava na ponte “como quem acredita no amanhecer”.
E o povo, mais uma vez, acreditou junto.
Entre margens e promessas
Foram
anos de discursos, “poemas” e de esperas.
Em Ilhota, cada eleição parecia uma nova travessia, e cada promessa, um bilhete
de embarque para lugar nenhum.
Mas o sonho, teimoso como o rio, continuava correndo, levando consigo a
esperança de que um dia o progresso teria endereço certo.
“A ponte
não era só de concreto. Era de fé, de paciência e de uma esperança que o tempo
não conseguiu derrubar.”
O sonho da ponte – Parte II: Décadas de travessia
“Somos o
único município que ainda não tem ponte. Isso é um absurdo.”
— José Izidro Vieira, prefeito de Ilhota, 1992 – Jornal Cruzeiro do Vale
1992 – Quando até a balsa cansou
No começo
dos anos 1990, Ilhota já carregava o peso de uma espera que beirava duas
décadas.
Em 1992, o Jornal Cruzeiro do Vale estampava uma notícia que
soava como ironia:
“Serviços
da balsa paralisados por um mês.”
A
travessia — símbolo de resistência e paciência — estava interditada para
reformas.
O prefeito José Izidro Vieira, conhecido até então por sua verve
poética, perdia a cadência mansa das palavras. Agora, o tom era de impaciência
e revolta:
“Somos o
único município que ainda não tem ponte. Isso é um absurdo.”
O jornal
registrava ainda que o governador já prometera diversas vezes a
construção, e nada.
A manchete refletia um sentimento antigo e coletivo: a sensação de isolamento
físico e político.
Em outra
edição, o mesmo Cruzeiro do Vale mostrava um prefeito enfrentando
resistência política. Sem maioria na Câmara, José Izidro ouvia críticas do
vereador Calo Costa, que resumiu, em poucas palavras, uma realidade
dura:
“O
problema é que o município é pequeno. Pequeno em votos. E não dão prioridade à
nossa cidade.”
Mesmo sem
apoio, José Izidro ainda acenava com esperança, dizendo acreditar que a ponte
“poderia sair até 1994”.
Adivinhem! Não saiu, ou eu não sei aonde fica. O sonho seguiu adiado.
2005 – O desabafo do povo
Mais de
dez anos depois, o cenário pouco havia mudado.
Em 2005, o Jornal Cruzeiro do Vale publicou uma carta
contundente da leitora Maria Rosália Corsani, que se tornou um retrato da
exaustão popular:
“Assim
como a ponte de Ilhota, tiveram várias mães... e mães.
Mas nenhuma deu à luz. Será que merecemos isso?”
O
desabafo ecoava a frustração de gerações que ouviram promessas, discursos e
anúncios, mas nunca o barulho de máquinas e operários à beira do rio.
O mesmo jornal relatava uma nova interdição de 15 dias da balsa, o que
travava não apenas o trânsito, mas a paciência da população.
Na época,
o prefeito Ademar Felisky, homem simples, de fala direta e espírito
obstinado, voltava a reacender a esperança.
Ele dizia em entrevista:
“Meu
sonho é ver essa ponte de pé. Ela é o que falta para Ilhota crescer.”
O Cruzeiro
do Vale, em editorial, endossava o discurso e alertava:
“A
ausência de uma ponte impede o crescimento econômico e social de Ilhota.”
Nessa
altura, poucos acreditavam na fala mansa.
O tempo
mostrava que a frase não era figura de linguagem: o atraso na ligação com a
BR-470 comprometia o comércio, a mobilidade e até o turismo local.
2006 – A balsa, símbolo de atraso
Em 2006,
o jornal Metas voltava ao tema.
A manchete, repetida (parecia 1987, ou 1992, ou 1998 ou...) como um lamento:
“Balsa
inativa causa transtornos.”
O texto
relatava longas filas, veículos esperando horas para atravessar o rio, e
moradores que se sentiam esquecidos pelo Estado.
A balsa, antes símbolo de resistência, já era símbolo de descaso.
2009 – Ademar Felisky: a travessia começa
Foi
preciso esperar até 2009 para que o sonho saísse, enfim, do terreno das
promessas.
No dia 22 de novembro de 2009, o site oficial da Prefeitura de Ilhota
noticiava com orgulho:
“Prefeito
Ademar Felisky assina ordem de serviço para construção da ponte sobre o Rio
Itajaí-Açu.”
Depois de
décadas de pedidos, ofícios, promessas e frustrações, o momento tinha o
sabor de vitória.
Ademar, emocionado, declarou que não fazia aquilo por vaidade política,
mas em respeito a uma espera que já atravessava gerações:
“Essa
ponte é do povo. É o símbolo de um sonho coletivo.
Ela não pertence a um partido, mas à história de Ilhota.”
O Cruzeiro
do Vale chamou o ato de “marco da história recente do município”.
E realmente era: máquinas começaram a se instalar, o projeto saiu do papel e o
ruído do concreto começou a se misturar ao som do rio.
Eu, no
auge dos meus 21 anos disse “só acredito, vendo e andando por cima da ponte”
Muitos
disseram neste dia que atravessariam nus se a ponte realmente fosse terminada,
por sorte nunca vi ninguém fazer tamanha baixaria.
Mas a
travessia, como sempre, não seria simples.
Entre 2010 e 2012, as obras sofreram paralisações, entraves burocráticos e
ajustes no orçamento.
Ainda assim, Ademar insistiu.
Enquanto outros desistiam, ele defendia o projeto em Florianópolis, cobrava
recursos e sustentava o sonho de pé.
2013-2017 – Daniel Bosi e o fim da espera

Coube ao
sucessor de Ademar, o prefeito Daniel Bosi, concluir e inaugurar a
ponte, finalmente ligando Ilhota e Gaspar de forma definitiva, após mais
de 35 anos de promessas.
O Jornal
Cruzeiro do Vale registrou o momento histórico com uma matéria emblemática:
“Ponte de
Ilhota é inaugurada na presença de grande público.”
Milhares
de moradores acompanharam o corte da fita, emocionados.
Daniel Bosi, em discurso, fez questão de reconhecer o trabalho de quem veio
antes:
“Essa
obra começou com Ademar Felisky, e hoje a concluímos juntos, em nome do povo de
Ilhota.
Cada prefeito que lutou por essa ponte faz parte dela.”
Eram
palavras simples, mas carregadas de justiça histórica.
Naquele dia, o povo atravessou o rio sem esperar a balsa pela primeira vez
em quase um século.
A ponte Padre
Cláudio Jeremias Cadorin, batizada em homenagem a um personagem pouco
citado neste artigo, porém de grande relevância ao incentivo da construção da obra,
tornou-se mais que uma obra de engenharia, tornou-se símbolo da persistência
e paciência de um povo que no início disse que o sonho nunca iria morrer.
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