Viação Verde Vale: O Cordão Umbilical de Ilhota.

Qual é a sua primeira memória no ônibus da Verde Vale? É o cheiro de diesel misturado ao ar da manhã? É o balanço suave da estrada que te embalava no caminho para a escola em Blumenau? Ou é o som familiar anunciando a chegada no Bairro Minas?

Linha Blumenau-Ilhota.


Para a comunidade de Ilhota, a Viação Verde Vale sempre foi mais do que uma linha de transporte intermunicipal. Por quase cinco décadas, ela funcionou como o verdadeiro cordão umbilical da cidade, ligando famílias, sonhos e o desenvolvimento local aos polos de Gaspar e Blumenau. Esta matéria é uma homenagem à sua história e, principalmente, às pessoas, funcionários e passageiros que, juntos, construíram o que hoje neste blog, chamamos de memória verde e branca.

A Raiz da História: Tibúrcio Bogo e as Linhas da Vida

A Viação Verde Vale nasceu no dia 29 de julho de 1975, por iniciativa de Tibúrcio Bogo e seus dois irmãos, a partir da aquisição de linhas da Auto Viação Catarinense. Com uma frota inicial modesta, a empresa rapidamente se tornou vital ao assumir as rotas que atendiam Gaspar, Blumenau e, crucialmente, Ilhota.

Tibúrcio e Jair Bogo: Pai e filho, fundadores da Verde Vale.



Naquela época, o ônibus era a principal via para o progresso: levava trabalhadores para as fábricas, permitia que estudantes buscassem formação superior e integrava o município ao contexto econômico regional. Sua capilaridade era impressionante, ligando o Centro a comunidades mais distantes e rurais, como a Barra, Ilhotinha, Boa Vista, Bairro Minas e todo o complexo dos Baús, incluindo a linha da Pedra de Amolar. Onde a vida acontecia, o Verde Vale chegava.

Os Pilares da Empresa: Uma Vida de Dedicação

A alma da Verde Vale estava em seus funcionários, muitos dos quais dedicaram a vida à empresa e se tornaram figuras conhecidas e queridas pelos ilhotenses.

Afonso Hoppe, um dos motoristas mais longevos, começou a dirigir em 1977 e dedicou mais de 34 anos à estrada. Seu relato evoca o início da empresa, quando os ônibus mais antigos tinham motor na traseira e ele precisava puxar uma alavanca para abrir a porta, um contraste gigante com os veículos modernos que vieram depois, mas uma demonstração do trabalho manual e dedicado. Afonso resume a relação: "O empregado evolui junto porque existiu uma parceria com a Verde Vale."

Afonso Hoppe, motorista que atuou na empresa mais de 30 anos.



A Escola da Vida e o Bom Humor

A empresa foi também a escola de vida e carreira para muitos, como é o caso de Pedro Paulo Máximo. Ele começou na Verde Vale com apenas 14 anos e, ao longo de mais de 25 anos de serviço, passou por todas as funções: lavador, abastecedor, manobrista, até se tornar o motorista bem-humorado e conhecido pelos ilhotenses.

"A Verde Vale fez parte da minha vida," conta Pedro Paulo Máximo. "O que eu tenho hoje agradeço em parte a eles e ao meu esforço. Foi uma ótima empresa, e fiz muitos amigos."


Pedro Paulo Máximo.

Outro profissional que viu sua carreira decolar ali foi Tiago Supp, que passou de cobrador a motorista em seus 12 anos na empresa. Sua gratidão reflete o impacto na vida dos passageiros:

"Transportei pessoas desde o primeiro dia até o último, levei muita gente pra faculdade, e vi pessoas se conhecerem, se casarem e formarem família."Tiago Supp

O Cobrador da Faculdade e as Histórias da Estrada

O ofício do cobrador era de proximidade e confiança. Nos primórdios, sem a catraca que conhecemos, o cobrador circulava em pé, no meio dos passageiros, fazendo a cobrança e o controle dos bilhetes.

O ex-cobrador Pedro Paulo de Oliveira Abreu realizou um sonho de infância ao ingressar na Verde Vale em 2005. Ele recorda que via nos funcionários uma inspiração. Mais do que um emprego, a empresa foi crucial para seu futuro:

"A história mais bonita que tenho a contar é que foi graças à Verde Vale que consegui terminar minha faculdade, pois não pagava a passagem e era um bom salário para a época."

O Lado Difícil da Estrada: Tragédia e Luto

A vida na Verde Vale não foi isenta de sacrifícios e momentos de profundo luto, compartilhados pela comunidade.

Pedro Paulo Abreu lembra-se do terror das enchentes de novembro de 2008. Em um sábado, dia 22/11/2008, ele e o motorista Luciano tentavam fazer as linhas de Ilhota a Blumenau. A chuva era tão intensa que viam barreiras caindo na pista, mas não a gravidade total do que estava por vir. Das três viagens programadas, completaram apenas duas. A noite trouxe a tragédia que a região jamais esqueceria.

Anos depois, a empresa e a comunidade enfrentariam outro luto: o assassinato do motorista Clodoaldo Benício Sabel em julho de 2011. Clodoaldo, morador do Braço do Baú, era funcionário desde 1995 e foi vítima da violência enquanto esperava para fazer a linha Gaspar-Baú, a rota que ligava sua casa e sua vida ao trabalho.

Clodoaldo Sabel


A comoção foi sentida em toda a região. Como uma moradora da época comentou: "O Braço do Baú está de luto." Esses episódios reforçam a humanidade da Verde Vale, uma empresa que, em seus veículos, transportava não apenas passageiros, mas a própria vida, as esperanças e as dores da comunidade.

O Legado do Verde e Branco

A jornada da Verde Vale como operadora das linhas intermunicipais chegou ao fim em maio de 2024. Devido a desafios operacionais, a operação foi repassada para a Expresso Presidente. Hoje, os ônibus que ligam Ilhota, Gaspar e Blumenau vestem cinza e vermelho.

No entanto, a história da Viação Verde Vale não está nas cores da nova frota. Ela está nas centenas de formaturas possibilitadas, nos primeiros empregos conquistados e nas famílias que se formaram. A memória verde e branca continua a circular, forte e vívida, no coração de cada ilhotense que já viu o ônibus subir a ladeira do Baú ou parar no Bairro Minas.

Horários para a Oktoberfest 1991


E você, qual é a sua história com a Viação Verde Vale?

Se você trabalhou, estudou ou simplesmente viajou para encontrar a família, queremos ouvir sua voz.

Deixe seu comentário abaixo! Compartilhe sua rota favorita, o motorista que você lembra com carinho ou o momento mais marcante que você viveu na Verde Vale.

Use a hashtag #MemóriasVerdeVale no Instagram e ajude a eternizar essa parte fundamental da história de Ilhota!


Fontes e Referências

  • Fonte 1 (Fundação e Histórico): Vídeo institucional ou reportagens sobre a criação da empresa por Tibúrcio Bogo em 1975, mencionando as linhas adquiridas da Catarinense. (Ex: Verde Vale, EgonBus / Viação Verde Vale – YouTube).

  • Fonte 2 (Afonso Hoppe): Reportagem sobre a trajetória do motorista, mencionando o ano de ingresso (1977) e detalhes sobre os ônibus antigos. (Ex: Jornal Metas – Uma vida ao volante).

  • Fonte 3 (Clodoaldo Sabel): Matéria sobre o assassinato do motorista em 2011, mencionando seu vínculo com a Verde Vale e a comunidade do Baú. (Ex: Cruzeiro do Vale – Quinto homicídio alerta para o aumento da criminalidade).

  • Fonte 4 (Encerramento): Reportagens locais de maio de 2024 que noticiaram o fim da operação intermunicipal pela Verde Vale e a transição para a Expresso Presidente. (Ex: NSC Total, Jornal Metas, Diário do Transporte – Notícias sobre o fim da operação Verde Vale em 2024).

  • Depoimentos Orais: Relatos e informações fornecidas diretamente por Pedro Paulo de Oliveira Abreu, Pedro Paulo Máximo e Tiago Supp.

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