Martinho Bugreiro: o matador de índios e a violenta memória no Vale do Itajaí

Martinho Marcelino de Jesus, mais conhecido como Martinho Bugreiro, é uma figura sombria na história catarinense: lembrado como um dos mais ferozes “bugreiros” — caçadores de indígenas —, ele operou principalmente no início do século XX e teve papel importante nos conflitos entre colonos europeus e os povos indígenas que habitavam o Vale do Itajaí, especialmente os Xokleng (ou Laklãnõ). Neste perfil, abordaremos sua trajetória com olhar histórico e crítico, refletindo sobre o que sua vida revela sobre os custos da colonização na região, sem cair em mitificações nem em condenações simplistas.




1. Origens e contexto

Martinho Bugreiro teria nascido em 9 de fevereiro de 1867, em São João Batista, Santa Catarina.  A região em que ele nasceu era ainda marcada por forte presença indígena e por disputas territoriais, conforme o avanço da colonização europeia (alemã, italiana, luso-brasileira) no estado.

Os bugreiros, ou milícias privadas contratadas para “afugentar” ou eliminar indígenas, surgiram em Santa Catarina num contexto de ocupação territorial por colonos, especialmente no Vale do Itajaí, onde a chegada dos colonos gerava tensões com populações indígenas nativas.  Segundo relatos, essas tropas normalmente eram compostas por 8 a 15 homens, em sua maioria “caboclos”, com grande conhecimento sobre a mata, e atuavam sob o comando de líderes — entre eles, Martinho.

De acordo com fontes históricas, Martinho era também criador de gado: segundo estudo etnográfico, ele trabalhava com criação e comércio de gado, o que facilitava sua mobilidade e seu envolvimento em expedições contra indígenas, porque podia se deslocar com seu “pelotão” de bugreiros. 


2. Atuação no Vale do Itajaí

A atuação de Martinho Bugreiro no Vale do Itajaí é bem documentada por historiadores. Segundo pesquisadores, ele comandou diversas expedições visando a “caça” de indígenas naquela região.  Conforme registro, ele teria sido nomeado “gerente” da Companhia Colonizadora Santa Catarina para dar “segurança” aos colonos fixados em áreas como Ituporanga e demais vales, sob a justificativa de que havia risco devido à presença indígena. Essa ligação direta entre bugreiros e empresas colonizadoras revela que a violência não era apenas iniciativa privada, mas parte de uma rede de poder envolvendo colonos e autoridades locais.

Além disso, conforme levantamento em um estudo da UDESC, há uma fotografia “curinga” que mostra Martinho com seu grupo de bugreiros e, à sua frente, mulheres e crianças indígenas capturadas (ou rendidas).  Essa imagem circula em diferentes publicações municipais (Vidal Ramos, Imbuia, Pouso Redondo, etc.), embora sem indicação clara de data ou local exato, o que sugere que o símbolo dessa foto se tornou parte da memória coletiva — talvez até “moldado” para diversas narrativas locais. 


3. Violência: relatos, testemunhos, práticas

Os relatos sobre as ações de Martinho Bugreiro são cruéis e violentos, vindos de depoimentos orais, estudos etnográficos e escritos de historiadores. Enéas Athanázio, jurista e escritor catarinense, descreve Martinho como “o mais hábil e frio exterminador de índios em Santa Catarina”, liderando um “esquadrão da morte”. Segundo Athanázio, os bugreiros atacavam pela madrugada, pegavam os indígenas dormindo, disparavam tiros para provocar pânico e depois usavam facões. “Cortavam as orelhas”, porque cada par de orelhas servia como “prova de serviço”, recompensada.  Um depoimento citado por Athanázio, de um bugreiro chamado Ireno Pinheiro (1972), afirma: “a carne dos índios cortava fácil, assim como quem corta banana.” 

Mais sistematicamente, em trabalho etnográfico e histórico, aponta-se que essas milícias operavam com uma combinação de contrato privado e tolerância oficial.  Eles eram “contratados por particulares e pelo governo”, segundo fontes. Além disso, há relatos de como a violência ia além das mortes: os bugreiros também capturavam mulheres e crianças, o que aponta para uma intenção não apenas de extermínio, mas de dominação, intimidação e “controle” das populações indígenas. 

Em uma das expedições, bugreiros relataram que usavam facões para matar depois dos tiros, e recolhiam partes do corpo (orelhas) como prova do “serviço” para justificar a remuneração.  Esse procedimento revela que não era apenas um conflito pontual, mas uma “economia da violência”: os bugreiros tinham incentivos claros para caçar indígenas vivos ou mortos, conforme o sistema de compensação.


4. Relação com autoridades e resistência

Embora Martinho Bugreiro fosse, de certa forma, figura marginal (não era um funcionário público típico), ele mantinha ligações diretas com colonos poderosos e empresas colonizadoras. Como mencionado, foi nomeado gerente da Companhia Colonizadora Santa Catarina por seu diretor, coronel Carlos Poeta, para “proteger” colonos da presença indígena nas regiões onde a colonização se intensificava.  Esse fato mostra que havia apoio institucional para suas ações.

Por outro lado, não faltavam críticas e resistência. Um dos personagens centrais nessa resistência foi Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, agente do Serviço de Proteção aos Índios (SPI).  Hoerhann realizou em 1914 o primeiro contato pacífico com os Xokleng no Alto Vale do Itajaí, estabelecendo o Posto Indígena Duque de Caxias (atual Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ).  Segundo relatos, em 1916 Hoerhann chegou a confrontar Martinho diretamente, dizendo: “se eu souber que você matou mais um índio … venho te buscar nem que seja no inferno”.  Esse embate simbólico revela tanto a tensão entre forças de “pacificação” e “caça” quanto a precariedade legal das ações dos bugreiros.

No entanto, mesmo com esse confronto moral e institucional, não há evidência clara de que Martinho tenha sido condenado por judicialização dessas mortes. A Prefeitura de Blumenau, no acervo da Memória Digital, afirma que “nunca foi tomada qualquer providência de ordem legal contra ele”.  Esse vácuo judicial é significativo: mostra que, apesar da violência, Martinho navegava com certa impunidade, protegido pela tolerância de parte da sociedade.


5. A memória social e histórica

A figura de Martinho Bugreiro ocupa um lugar ambíguo na memória regional: para alguns, ele era um “defensor dos colonos”, alguém necessário para garantir a segurança na fronteira colonial; para outros, é uma figura moralmente condenável, símbolo de violência brutal e de extermínio indígena.

A Fundação Cultural de Blumenau descreve-o como líder de um “esquadrão da morte” e afirma que ele matou muitos indígenas, mas recebeu apoio e financiamento de colonos — e nunca enfrentou punição legal.  Já Enéas Athanázio, em seu texto “Bugreiros de Perto e de Longe”, chama atenção para o paradoxo: Martinho era respeitado na comunidade branca (“homem sério, correto nos negócios, estimado pela família”), mas comandava um grupo que praticava atrocidades. 

Trabalhos acadêmicos abordam como a memória indígena (dos Xokleng) é afetada por essa presença brutal. Em dissertação da UDESC, por exemplo, destaca-se que há poucas fontes escritas produzidas pelos indígenas daquela época, o que faz com que a narrativa dominante sobre o passado seja em grande parte escrita pelos colonos e por historiadores brancos.  Isso gera um problema: a figura de Martinho se torna central, enquanto relatos indígenas são menos documentados, alimentando uma narrativa centrada no “herói branco” ou no “vilão branco” — sem dar protagonismo pleno às vozes indígenas.

Além disso, organizações contemporâneas como o Instituto Socioambiental (ISA) destacam que a violência de bugreiros como Martinho faz parte de um percurso de opressão institucional e estatal contra os Xokleng, com implicações até os dias de hoje.  Por exemplo, a saga dos Laklãnõ-Xokleng inclui não apenas os massacres do passado, mas também disputas territoriais modernas, como a demarcação de terras indígenas, e a luta por reparação histórica.


6. A “pacificação” e a criação da reserva indígena

Um dos momentos mais decisivos no Vale do Itajaí em relação aos Xokleng foi a atuação de Eduardo Hoerhann, que buscou um caminho de pacificação. Em 1914, Hoerhann estabeleceu contato com os Xokleng, resultando na criação do Posto Indígena Duque de Caxias.  Esse posto posteriormente se tornou parte da Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ, formalizada por decreto estadual em 1926. 

A pacificação não significou simplesmente subjugação: havia um reconhecimento de que os indígenas precisavam de um território, embora a demarcação inicial prevista (4.143 hectares) nunca tenha sido totalmente cumprida.  A consolidação de uma terra indígena foi lenta, mas é um marco institucional importante — pois representou um limite (ainda que precário) para a ação livre dos bugreiros.

Entretanto, essas conquistas também vinham acompanhadas de desalojamentos, transformações culturais e imposições: os indígenas foram incentivados a abandonar práticas nômades, migração tradicional e modos de vida para “ser acomodados” no posto.  Isso mostra que a pacificação promovida por agentes como Hoerhann foi uma via de compromisso, mas não sem impactos profundos sobre a cultura Xokleng.


7. A ausência de punição formal

Como já mencionado, embora Martinho Bugreiro tenha sido protagonista de múltiplas expedições com consequências letais para os indígenas, não há registros de condenações judiciais efetivas contra ele. Segundo a Prefeitura de Blumenau, “nenhuma providência de ordem legal” foi tomada, apesar da violência sistemática.  Esse fato é importante para a reflexão crítica: ele revela como, na época, a lei era frágil, seletiva ou conivente, especialmente quando o alvo das atrocidades eram os indígenas.

A impunidade histórica de Martinho tem implicações éticas muito sérias: não apenas porque permitia que ele continuasse suas expedições, mas porque legitimava um modelo de “segurança colonial” que envolvia o uso da força letal contra populações indígenas. Esse vácuo legal também mostra como o Estado e a sociedade colonizadora viam os indígenas: como obstáculos que precisavam ser removidos, não como cidadãos com direitos a proteger.


8. Reflexão crítica: memória, violência e legado

8.1 Não demonizar a colonização como um todo, mas reconhecer processos violentos

Uma das tarefas mais difíceis quando se trata de figuras como Martinho Bugreiro é não cair em simplificações. É tentador retratá-lo como um monstro absoluto — e, de fato, há muitas evidências que sustentam essa visão — mas isso não nos dispensa de reconhecer que ele operava dentro de estruturas coloniais: havia colonos que pagavam por “segurança”, empresas colonizadoras que contratavam bugreiros, um Estado que muitas vezes fechava os olhos.

Reconhecer isso não é exonerar sua responsabilidade, mas entender que a violência não era necessariamente fruto apenas de impulsos individuais, e sim parte de uma política de ocupação de território.

8.2 A centralidade do protagonismo indígena

Ao falar de Martinho, corre-se o risco de tornar sua figura tão dominante na narrativa que se apaga a voz dos indígenas, credibilizando uma história de extermínio contada principalmente por colonos e historiadores brancos. Mas os Xokleng (Laklãnõ) não são apenas vítimas estáticas: resistiram, negociaram, sofreram, transformaram-se. A criação da Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ e a luta atual por demarcação mostram que eles não foram totalmente derrotados, embora o trauma histórico permaneça.

A reflexão crítica exige, portanto, dar mais espaço à perspectiva indígena, recuperar relatos orais, priorizar estudos antropológicos e etnográficos e reconhecer que a história deles não pode ser reduzida à figura de um matador.

8.3 A importância da memória regional e da reparação simbólica

Martinho Bugreiro é parte de uma memória traumática, mas também simbólica. Para a comunidade branca dos colonos, sua figura pode ter sido celebrada como garantia de segurança; para os indígenas, é lembrado como executor de terror. Recontar sua história hoje exige cautela, para não romantizar a violência, mas também para não apagar a participação dele como agente de dominação.

A memória regional tem papel importante: museus, escolas, blogues (como o seu) podem contribuir para que a história do Vale do Itajaí seja contada de forma mais honesta. Isso inclui discutir políticas de reparação simbólica (monumentos, placas informativas, debates comunitários) e promover a valorização da cultura Laklãnõ-Xokleng.

8.4 Implicações para o presente

O passado brutal dos bugreiros tem eco no presente: as lutas por demarcação de terras indígenas, pelas políticas de reparação e pelo reconhecimento dos direitos indígenas ainda são centrais para os Xokleng. O fato de que o Supremo Tribunal Federal (STF) recentemente rejeitou a tese do “marco temporal” em casos indígenas fortalece a importância de revisitar o passado colonial para compreender os conflitos atuais. Terras Indígenas+1

Além disso, a forma como a memória de bugreiros como Martinho Bugreiro é transmitida para as novas gerações pode moldar a identidade local: se for eliminada, corre-se o risco de fingir que não houve violência; se for celebrada sem crítica, corre-se o risco de legitimar a brutalidade histórica. O desafio é encontrar um equilíbrio: lembrar para aprender, sem glorificar.


9. Conclusão

Martinho Bugreiro não é apenas uma figura lendária ou folclórica: ele é um símbolo histórico muito concreto da violência colonial no Vale do Itajaí. Sua vida e suas ações revelam como o processo de colonização europeia em Santa Catarina teve, como parte de sua dinâmica, milícias contratadas para hurtar, intimidar e matar. Ele operava em confluência com colonos e autoridades, e apesar das brutalidades, viveu muitos anos sob certa impunidade.

Refletir sobre Martinho é, portanto, refletir sobre os custos humanos da colonização: o abalo profundo causado aos povos indígenas, a destruição de culturas, a transformação forçada de modos de vida. Mas também é uma oportunidade para reafirmar a importância da memória indígena, para dar voz aos Laklãnõ-Xokleng e para reconhecer que reconciliar uma história dolorosa não significa apagá-la — significa enfrentá-la com honestidade.

O Vale do Itajaí não pode se orgulhar simplesmente de suas colônias sem reconhecer que, por trás da construção de casas, estradas e comunidades, existiram confrontos, mortes, injustiças. Ao mesmo tempo, a memória de Martinho Bugreiro pode se tornar uma ferramenta de ensino e de reparação simbólica: estudá-lo, discutir seus atos e preservar as memórias dos que sofreram podem ajudar a construir uma identidade regional mais madura, que não nega o passado, mas o abraça para aprender com ele.


  • refeitura de Blumenau. Memória Digital: Martinho Bugreiro. Blumenau, Fundação Cultural de Blumenau, 11 set. 2017. Disponível em: https://www.blumenau.sc.gov.br/secretarias/fundacao-cultural/fcblu/memaoria-digital-ao-revista-blumenau-em-cadernos-60-anos-ao-martinho-bugreiro72. Acesso em: 16 nov. 2025. Prefeitura de Blumenau

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  • Gomes, Giovanna. Povo Xokleng: os indígenas que quase foram dizimados em Santa Catarina. Aventura na História, 07 fev. 2023. Disponível em: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/povo-xokleng-os-indigenas-que-foram-quase-dizimados-em-santa-catarina.phtml. Acesso em: 16 nov. 2025. Aventuras na História

  • Portal do Rancho. “Meu nome é Martim Bugreiro”. Por Letícia Weigert. Disponível em: https://www.portaldorancho.com.br/portal/meu-nome-e-martim-bugreiro. Acesso em: 16 nov. 2025. Portal do Rancho

  • Cada Um na Sua Lua. “Vô matá esse bugre”: os conflitos entre os Xokleng e os colonos no Alto Vale do Itajaí (primeira metade do século XX). 19 jun. 2017. Disponível em: https://cadaumnasualua.blogspot.com/2017/06/vo-mata-esse-bugre-os-conflitos-entre.html. Acesso em: 16 nov. 2025. cadaumnasualua.blogspot.com

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  • Os Bra­sis e Suas Memórias. “O vapor e o botoque”: relatos sobre Martinho Bugreiro e expedições contra indígenas. Disponível em: https://osbrasisesuasmemorias.com.br/wp-content/uploads/2018/04/O-VAPOR-E-O-BOTOQUE.pdf. Acesso em: 16 nov. 2025. 

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