Ilhota Antes da Colônia Belga: A Saga do Latifundiário e Escravocrata Tenente Coronel José Henrique Flores e o Poder que Ele Gerou em Santa Catarina
Ilhota, um Terreno Moldado pela História e pela Elite Imperial
A história do município de Ilhota está intrinsecamente ligada à vida e aos vastos domínios do Tenente Coronel José Henrique Flores. Longe de ser uma terra desabitada, a região era o centro de um dos maiores latifúndios escravocratas do sul de Santa Catarina na primeira metade do século XIX, a Fazenda Boa Vista do Pocinho.
| Tenete Coronel Henrique Flores |
A biografia de Flores não é apenas um registro de posse de terras; é uma crônica sobre a transição do poder imperial escravocrata para a colonização europeia, e o surgimento de uma das mais importantes dinastias políticas do estado.
I. A Chegada da Elite e o Gigantesco Dote Imperial (A Origem do Poder)
A ascensão de José Henrique Flores no Vale do Itajaí foi impulsionada pelo seu casamento e conexões com a alta sociedade do Brasil Império, mais do que por esforço local.
O Casamento e o Dote da Sesmaria.
Flores se casou com Maria Clara Conceição Breves da Silveira, uma mulher com uma linhagem de extremo prestígio. Maria Clara era sobrinha do Barão de Piraí, figura pertencente à influente família Breves, conhecidos como "reis do café" no Vale do Paraíba (Rio de Janeiro) por sua colossal posse de escravos.
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| José Gonçalves de Morais, O barão de Piraí. |
A base de seu poder territorial em Santa Catarina foi formalizada em 1835 através de uma grande Sesmaria doada pelo Governo Imperial. As fontes indicam que essa concessão foi, provavelmente, o dote pelo seu casamento com Maria Clara. Outras fontes sugerem que "que se desfez de suas propriedades e as de sua esposa, recebidas em dote e em heranças, no RJ, ao radicar-se em Santa Catarina" e "Imaginamos ter sido o motivo competição familiar por espaço com seu irmão mais velho, Antônio Henriques FLÔRES, o qual, como primeiro filho varão, teria naturalmente o favorecimento dos pais, como era comum na época, desde que manifestasse capacidade para seguir adiante com os negócios da família – e isto ele demonstrava, como pudemos constatar através de várias publicações em periódicos da época, relatando atividades suas na Corte". Esta parte foi retirada do livro: Família Flores.
A Extensão do Território na magem direita do Itajaí-açu.
O mapa das sesmarias da época revela o domínio esmagador de Flores. Seu latifúndio abrangia:
Margem Total: Estendia-se pela margem direita e esquerda do Rio Itajaí-Açu (na primeira imagem apenas os dominios da margem direira).
Limites: Suas terras iam desde a divisa de Ilhota com Itajaí, passando por praticamente toda a área de Ilhota (conforme citado no livro "Ilhota: o encanto dos Belgas no vale do grande rio"), seguindo pelo Ribeirão Gaspar Grande, Pocinho, Poço Grande, e chegando até as proximidades da Barra de Luiz Alves.
O Coronel Flores, um fluminense com capital e conexões políticas no Império, transformou-se no grande senhor de terras do Vale, antes mesmo da chegada dos colonos alemães de Hermann Blumenau (1850).
| Mapa da época que serviu para a adaptação do mapa de cima. Fonte: Adaptado de Departamento Estadual de Geografia e Cartografia (1876, apud CABRAL, 1958, p. 253). |
Em vermelho vemos a propriedade que não foi vendida e inclusive nela ficava a sede da fazenda Boa Vista de Flores, ao lado do ribeirão das Canas.
| Ruinas da casa onde ficava a sede da fazenda de Flores. |
II. A Fazenda Boa Vista do Pocinho: O Centro da Economia Escravocrata
A Fazenda Boa Vista do Pocinho, em Gaspar, era a sede desse vasto império rural. Localizada estrategicamente próxima à foz do Ribeirão das Canas, na margem direita do Rio Itajaí-Açu, ela funcionava como um centro de poder e produção.
As Culturas e a Infraestrutura
A fazenda era especializada em culturas que exigiam grande mão de obra:
Produtos Principais: Cultivo de café, cana-de-açúcar, milho e mandioca.
Exploração: Havia exploração de madeira e, segundo relatos, de ouro (na região da atual Minas, divisa com Ilhota).
Instalações: A sede possuía Casa Grande e Senzala, engenhos de açúcar e farinha, serraria movida por água represada e uma grande eira para secagem do café (cujos vestígios ainda eram visíveis no século XX).
A Contradição Histórica: A Escravidão em SC
José Henrique Flores foi o maior proprietário de escravos da região, uma figura que personifica o escravismo no Vale do Itajaí.
O TCC de Vinícius Bosignari (Elite senhorial e escravidão no Vale do Itajaí: as fazendas de José Henriques Flores.) é crucial para desmistificar a crença de que a escravidão era branda em Santa Catarina.
Os 400 Cativos: Embora a tradição oral e algumas publicações (como o livro de Ilhota) citem a chegada de Flores a Itajaí com 400 escravos, a historiografia acadêmica, como a de Bosignari, questiona a precisão deste número tão elevado, mas confirma que sua propriedade era, de longe, a que possuía o maior contingente de cativos.
O Levante de 1867: A tensão da vida escrava resultou no levante de 1867 na Fazenda Boa Vista do Pocinho. Este evento dramático, investigado por Bosignari, demonstra a resistência ativa dos escravizados contra os maus-tratos e as condições da Senzala.
O latifúndio de Flores, com seus vastos campos cultivados e senzalas, era a realidade de Ilhota antes do sonho europeu de Van Lede.
| José Henrique Flores, Óleo sobre tela |
A venda de parte das terras de Flores marcou o ponto de inflexão histórica, abrindo o Vale à colonização.
A Negociação: Em 1844, o Coronel Flores vendeu uma porção significativa de seu domínio na margem direita do Itajaí-Açu para o Major Charles Maximiliano Luiz Van Lede. Esta transação permitiu a fundação da Colônia Belga (futura Ilhota).
Apoio Indireto à Colonização: Flores, como a autoridade fundiária da época, não apenas vendeu as terras de Ilhota, como também, em diferentes momentos, deu suporte logístico à chegada dos primeiros imigrantes alemães que desciam o rio para colonizar Blumenau. Sua atuação política e territorial foi inevitavelmente ligada ao início do projeto colonizador na região.
IV. O Legado de Poder: A Família Flores e a Dinastia Konder-Bornhausen
O poder de José Henrique Flores não se extinguiu; ele se transformou em influência política e econômica através de seus filhos, gerando uma das mais poderosas linhagens políticas de Santa Catarina.
1. José Henrique Flores Filho: O Pioneiro em Blumenau
Governo: O filho, José Henrique Flores Filho (n. 1842), foi uma figura central na emancipação de Blumenau. Eleito o vereador mais votado, presidiu a primeira Câmara Municipal e tornou-se, por lei, o primeiro Superintendente (Prefeito) de Blumenau, governando de 1883 a 1887. Sua gestão marcou a transição da Colônia para o Município.
Morte Prematura: Faleceu em 1891, em um acidente de charrete.
2. Adelaide Flores Konder: A Matriarca de SC
A filha, Adelaide Flores, casada com Marcos Konder Sênior, é o elo genealógico mais importante.
Atuação Econômica: Adelaide herdou terras do pai no Baú, as quais administrou com o marido. Eles foram responsáveis pela construção da Usina Adelaide (Usina de Açúcar de Pedra de Amolar), um grande empreendimento local, batizado em sua homenagem.
Usina Adelaide durante a enchente dos anos 80. O Genro Político: Marcos Konder Sênior casado com Adelaide, foi um político influente de Itajaí, ativo no desenvolvimento da região, e o patriarca da família Konder em Santa Catarina.
3. Marieta Konder e a Dinastia Konder-Bornhausen (A Neta Central)
Marieta Konder, neta do Coronel Flores e filha de Adelaide. Marieta Konder casou-se com Irineu Bornhausen, unindo as famílias mais poderosas da região e consolidando uma dinastia política que dominaria o estado:
Adolfo Konder: Filho de Adelaide Flores e Marcos Konder, e irmão de Marieta, foi Governador de Santa Catarina (1926–1930).
Jorge Konder Bornhausen: O filho de Marieta e Irineu, Jorge Bornhausen, viria a ser Governador de Santa Catarina (1979–1982) e um dos líderes políticos mais importantes do Brasil na República.
O sangue do grande latifundiário escravocrata de Ilhota, José Henrique Flores, fluiu diretamente para o comando político de Santa Catarina por mais de um século, através de sua prole Flores-Konder-Bornhausen.
| José Henrique Flores Filho, Filho de Henrique Flores, foi o primeiro prefeito de Blumenau. |
| Adolfo Konder, filho de Adelaide e Marcos Konder era neto de Henrique Flores, foi governador de Santa Catarina. |
| Jorge Konder Bornhausen, bisneto de Henrique Flores, foi Governador de Santa Catarina |
A história de Ilhota antes da Colônia Belga é, fundamentalmente, a história do poder do Tenente Coronel José Henrique Flores. Ele não apenas dominou a terra com sua Fazenda Boa Vista e seus escravos, mas também plantou as sementes da elite que governaria Santa Catarina. A venda de Ilhota a Van Lede foi o início de uma nova era de colonização, mas o legado de Flores, cravado no Pocinho e na genealogia política do estado, persiste como um dos pilares mais complexos e fascinantes da história do Vale do Itajaí.
Referências:
BOSIGNARI, Vinícius. Elite senhorial e escravidão no Vale do Itajaí: as fazendas de José Henriques Flores (c. 1836-c. 1890). Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) — Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de História, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2022. Disponível em: repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/242365/TCC%20-%20Vinícius%20Bosignari.pdf . Acesso em: [27/10/2025].
PIMAZZONI FILHO, Renato José La Porta. Família Flôres (Açores, Portugal): os Breves do Sul. [S.l.]: Clube de Autores, [s.d.]. Disponível em: <https://livrariapublica.com.br/livros/familia-flores-acores-portugal-renato-jose-la-porta-pimazzoni-filho/\>. Acesso em: [27/10/2025].
METTE, Ana Luiza; SOUZA, Elaine Cristina de. Ilhota: o encanto dos Belgas no Vale do Grande Rio. Blumenau: Nova Letra, 2009. 208 p
Periódicos e mapas diversos


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