Gilmar de Oliveira e as Vozes do Garimpo de Ilhota

Olá, leitores do blog Viva Ilhota!

As memórias de Gilmar, o garimpeiro que viveu o ouro de Ilhota.

Quando se fala em ouro, muita gente pensa em filmes, em grandes minas e fortunas escondidas. Mas para Gilmar de Oliveira, o ouro de Ilhota tinha outro brilho, o brilho do suor, da esperança e das histórias que ficaram enterradas junto com a terra revolvida das dragas.

Gilmar chegou ao bairro Minas nos anos 1980, quando a cidade começava a viver uma febre inesperada: a descoberta de ouro nas margens dos rios de Ilhota. Vieram homens de várias partes do Brasil, do Mato Grosso, do Paraná, do interior de Santa Catarina, todos guiados pelo mesmo sonho: encontrar o “bamburro”, aquela pepita grande que podia mudar a vida de uma vez.

Devia ter uns cem garimpeiros por aqui, todo mundo animado. O dono da terra liberava, a gente botava a draga e trabalhava dia e noite. O barulho era constante, parecia que a terra pulsava com a gente”, lembra Gilmar, com o olhar distante, como quem escuta o som das máquinas ainda ecoando no tempo.

O trabalho e o companheirismo.
Gilmar fala do garimpo como quem fala de um velho amigo: com carinho, mas também com respeito pelo sofrimento que trazia.
O dia começava cedo. Lama até o joelho, sol forte, as mãos calejadas de tanto manusear mangueiras e bateias.
A gente dormia em barraco de lona, com chão de terra e beliche de madeira. Tinha quem viesse com família, mas a maioria vinha sozinho, com uma mochila e o sonho de achar ouro.

Mesmo sem contrato ou papel, tudo funcionava na base da confiança. Toda sexta-feira a gente prestava conta pro dono da terra. Era 10% pra ele, 40% pros garimpeiros e 50% pro dono da draga. Era combinado assim e ninguém reclamava. Palavra valia mais que documento.

Era uma vida simples, mas havia uma espécie de código de honra entre eles — a solidariedade do garimpo. Quando um motor quebrava, todos ajudavam. Quando um “achado” era grande, o bar do bairro virava ponto de comemoração. O ouro vinha em pó, mas quando a gente via brilhar dentro da caixa, parecia que o mundo parava.



A convivência com o povo de Ilhota.

Gilmar lembra que, no começo, o povo local olhava meio torto para aqueles homens barbudos, de chapéu e fala arrastada.
Eles achavam que a gente era tudo aventureiro, desocupado. E eu até entendo... de repente, um bando de gente de fora chega, levanta barraco, mexe com as terras, muda a rotina. Mas com o tempo fomos ficando amigos. Jogávamos bola, íamos nas festas, e a cidade foi nos aceitando.

O garimpo acabou virando parte da vida da comunidade. As histórias começaram a se misturar — os filhos dos garimpeiros brincavam com os das famílias locais, o comércio ganhou movimento, e as noites do bairro Minas tinham mais luz, barulho e conversa do que nunca.

O fim do ouro.

Mas o ouro, como tudo que brilha demais, também passa.
O preço caiu, o governo começou a cobrar imposto, e as máquinas ficaram paradas.
Por volta de 1992, o som das dragas foi sumindo. Um a um, os garimpeiros foram indo embora. Ficamos poucos por aqui, e eu acabei ficando. Fiz minha vida em Ilhota.

Hoje, Gilmar ainda passa pelos mesmos lugares onde um dia buscou fortuna. O rio mudou, a mata cresceu, e só a lembrança ficou. Se cavar ali, ainda sai ouro. Mas ninguém mais tem coragem de se meter naquilo. A gente aprendeu que o verdadeiro ouro foi o que vivemos juntos.

Mais que ouro, memória.

O que Gilmar guarda não são pepitas, mas lembranças de um tempo em que Ilhota respirava trabalho, sonho e companheirismo.
Ele fala com orgulho, e um pouco de saudade, daquele pedaço da história que quase ninguém conta, mas que ajudou a moldar o caráter de muita gente.

Era uma vida dura, mas boa. A gente acreditava que podia vencer com as próprias mãos. E, de certa forma, venceu.

Hoje, o brilho do ouro se apagou, mas o brilho da memória continua vivo, nas palavras de Gilmar e nos corações de quem viveu o tempo em que Ilhota foi, por alguns anos, a cidade onde o ouro dormia sob os pés de homens simples e sonhadores.





* Nas fotos é destaque o próprio Gilmar de Oliveira, Wladimir e o Bimba.

Gilmar e família atualmete.

Texto baseado nas memórias de Gilmar de Oliveira, ex-garimpeiro entrevistado em 2008 para o trabalho “Vozes do Garimpo: História e Memória da Extração de Ouro em Ilhota (1986–1992)”, de Pedro Paulo de Oliveira Abreu.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ricardo Koeller: A Dedicação, a Ordem e a Honestidade a Serviço de Ilhota

Um ano depois da eleição: o que os ilhotenses pensam da administração de Joel e Lico?

Viação Verde Vale: O Cordão Umbilical de Ilhota.